Luís de Matos: “Quando se fala de magia, acha-se que tudo é possível”

Num espetáculo de pura magia em que qualquer fantasia pareceu real, cinco cavaleiros da ilusão de renome mundial desfilaram com truques na antestreia de “Mestres da ilusão 2”.

O Cinema NOS do Centro Colombo recebeu a convite de Luís de Matos, o coreano e mestre da manipulação Hyunjoon Kim, cujas cartas pareciam não terminar de lhe sair da ponta dos dedos; os austríacos Thommy Tem e Amélie Van Tass, conhecidos como mentalistas, num momento em que um adivinhava, mesmo vendado, tudo aquilo que o outro via ou tocava, sendo objetos que o próprio público escolhia da sua carteira ou bolso e o holandês Jan Reinder, que atravessou uma faixa de ratoeiras colocando os seus pés ou mãos nas falhas que um membro do público, ao acaso, criou sem ele ver.

No entanto, o mistério não foi desvendado e os espetadores foram embora questionando-se sobre cada detalhe. No final estivemos à conversa com Luís de Matos:

Estão aqui, de certa forma, para fazer uma introdução ao filme “Mestres da Ilusão 2”. O que achou do filme, nomeadamente, dos truques de magia (ou ilusão) nele incluídos?
Acho que o “Mestres da Ilusão 2” é melhor do que o primeiro. Gostei imenso do primeiro, porque está com uma imagem extraordinária e muito contemporânea sobre aquilo que eu gostava que fosse o mundo da magia e sem os estereótipos antigos e com um lado mais moderno, mas todos estamos habituados, regra geral, a que as sequelas sejam menos espetaculares do que as primeiras edições e aqui foi precisamente o contrário. Daí a minha enorme surpresa. Que foi perceber que há mais meios, a história está mais bem conseguida, a realização é extraordinária, o leque de atores é magnífico e fiquei muito, muito feliz. E sei que para breve está o início da rodagem do “3”. Portanto vai ser uma trilogia. Este 2 está muito bem conseguido.

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O primeiro e o segundo são de realizadores diferentes – o primeiro é do Louis Leterrier e o segundo, do Brian Tyler. São estilos diferentes.
Sim, mas preferi este segundo porque normalmente há uma certa preguiça em revitalizar as histórias quando se tratam de sequelas e neste segundo, o facto de acontecer em vários países – nos Estados Unidos, na China, em Londres – a surpresa e o suspense são mantidos até ao último instante. E como referi há pouco [durante a representação], há um piscar de olho à comunidade mágica e, embora não o tenha mencionado durante o espetáculo, a dita “Essential Magic Conference” foi criada por mim e produzida por mim em Portugal, com os maiores mágicos do mundo inteiro presentes por cá e, de repente, isso passar a ser uma referência que ganha um passaporte para o filme é claro que não me é indiferente. E as coisas fazem sentido, porque quando se fala de magia, acha-se que tudo é possível… Pronto, ok… Este sofá voa e transforma-se numa pomba! Isso não faz muito sentido e, ali, apesar de haver um recurso óbvio, evidente e perfeitamente legítimo aos truques de câmara, aos efeitos especiais, aos gráficos gerados por computador, há um toque com a realidade que nunca é perdido e isso é uma tentação em que muitos filmes sobre magia acabam por cair e este não o fez.

“Toda a sequência e as referências e piscares de olho ao mundo da magia são notáveis e espelham que houve um trabalho de pesquisa que não voltava as costas ao trabalho da magia, mas que ao contrário, a abraçava”

Todos têm métodos diferentes – uns são os mentalistas, outro, o manipulador, etc. Como foi feita a preparação para este espetáculo a dez mãos?
A NOS já me tinha desafiado quando foi o “Now you see me”, o original que passou em Portugal, e teve um êxito absolutamente extraordinário. Esteve em cena 16 semanas e bateu todos os recordes, não só de bilheteira, mas de permanência em cartaz. Portanto, eles contactaram-me, eu vi o filme e olhamos para aquilo, para a ideia e para o que eles gostavam de fazer e não gostavam de fazer uma antestreia como as tradicionais que são sobretudo direcionados e que acabam por privilegiar a imprensa e determinados convidados, mas já que o público premiou o filme no passado, eles queriam que fosse dirigido aos fãs do filme e foi isso o que aconteceu. Fizemos meia dúzia de sessões especiais e foram desenhados com a inspiração do filme. Escolhi estes colegas e convidei-os. Foram a minha primeira escolha, a minha primeira seleção. Foram as pessoas de que eu gostava e que faz sentido ter nesta apresentação, porque têm, simultaneamente, um lado espetacular, original, contemporâneo, são de diferentes nacionalidades e de ambos os géneros e isso é uma mensagem que também acaba por passar no “Mestres da Ilusão”.

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Alterava alguma coisa, algum dos truques incluídos? Qual e porquê?
Não. Acho que toda a sequência e as referências e piscares de olho ao mundo da magia são notáveis e espelham que houve um trabalho de pesquisa que não voltava as costas ao trabalho da magia, mas que ao contrário, a abraçava. Sinceramente não há nada que alterasse. Ok, talvez haja uma única ilusão que talvez seja demasiado fantasiosa, mas era única que retirava. Até o facto de o Daniel Atlas [protagonizado pelo Jesse Eisenberg] conseguir parar a chuva, é uma ilusão de ótica que é perfeitamente conhecida e ele explica como é que funciona. Claro que eles o fazem de uma forma mais extraordinária, mas a explicação científica está lá. Há um único momento onde foram demasiados ambiciosos, mas acho que o filme permite que se faça isso.

Referente ao primeiro filme, acha que seria possível simular daquela forma o desaparecimento do montante do cofre?
Também no primeiro, a utilização de um espelho a 45 graus para mostrar que a caixa estava vazia, quando de facto não estava e tal e tal… tinha um fundo de verdade, mas não era o suficiente para que não fosse um exercício de sétima arte, na minha opinião. Aliando-se um bocadinho da área que estava a ser protagonizada. Também por isso acho que este “2” é melhor.

Disse uma vez, em entrevista, que a impunidade é algo que não entende, que não entende que haja pessoas que não sejam responsabilizadas pelos seus atos. Quem ou qual corrupto impunido é que faria desaparecer, se pudesse?
Acima de tudo, apesar de achar isso, há coisas fundamentais e são ideias, opiniões que valem o que valem, só a mim me dizem respeito, mas as pessoas que me são mais próximas sabem que não acredito na justiça ou o facto de por ela ter uma repulsa enorme quando há impunidade, ignorância ou arrogância. Por outro lado, quando me perguntam quem é que faria desaparecer, a minha veia otimista acaba por falar mais alto e, por isso, não tenho resposta nem procuro tê-la, porque se alguém por se ter portado mal merece que a faça desaparecer, então seguramente que essa pessoa não merece o tempo que iria gastar a fazê-la desaparecer. Então, ignoro-a, porque a vida é muito curta e tem um tempo muito limitado e nem sequer sabemos qual é o prazo de validade, até quando é que podemos usufruir deste mistério extraordinário. Por isso, procuro ser mais positivo, tolerante e não perder tempo com situações que não são merecedoras do meu tempo.

“Aquilo que eu faço não é um puzzle que se desvanece com o conhecimento do segredo”

Diz que gosta de ser surpreendido. O que o surpreendeu mais até hoje (de forma positiva)?
Hoje é um dia de surpresa, porque quando há exatamente 21 anos, no dia 12 de junho, decidi criar a minha empresa – a Luís de Matos produções –, não sabia que 21 anos depois estaria a celebrar esta efeméride da melhor forma, que é a produzir um evento único, com esta antestreia do “Now you see me 2”, a dar uma entrevista franca e honesta a propósito de todas estas coisas, a trabalhar com toda esta equipa que aceitou juntar-se a mim a 21 anos e, por isso, esta é seguramente uma grande surpresa e consequentemente uma grande celebração.

Quando as pessoas o abordam e que perguntam “como o fez”? O que lhes responde?
Se as pessoas quiserem muito saber, eu explico.

Revela o seu truque?
Sim, não tenho problema nenhum. Na minha opinião, aquilo que eu faço não é um puzzle que se desvanece com o conhecimento do segredo. É a mesma coisa que achar que o trabalho de um pintor se desvaneceria por sabermos onde é que ele compra as tintas ou qual é o tamanho do pincel que utiliza. Acho que os truques como usar fios, espelhos, sai da manga e vai para o fundo falso, são cartas especiais… são meia dúzia de truques, como há meia dúzia de notas musicais. Agora, cada artista é que pode reordenar, recompor, reutilizar cada um destes mecanismos, cada uma destas notas musicais ou destes truques para criar ilusões ou para criar músicas. Depois há ainda uma terceira fase, em que essas ilusões podem ser convertidas em momentos verdadeiramente mágicos, de sempre e quando quando o público nos conceder o privilégio de podermos desafiar a sua capacidade de sonhar e juntos partilharmos um mistério. Aí, acontece magia. É a mesma coisa com a música: os truques estão ao nível das notas musicais, as ilusões estão ao nível das composições e, mais tarde, quando surgem as interpretações por parte do público, podem surgir momentos verdadeiramente mágicos e únicos na partilha do que o artista faz e da forma como o público o perceciona.

Qual é o seu público preferido?
É todo aquele que não vai ficar em casa a ver televisão, não vai ao café, não à discoteca, não fica a brincar na playstation, não passa o tempo no Facebook, mas decide ir ver o Luís de Matos e decide comprar o seu bilhete, ocupar o seu lugar e saber que aquilo vai durar duas horas, mas está desejoso (e até paga para isso) de usufruir daquela viagem mágica. E esse é verdadeiramente o meu público favorito.

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O que é um momento mágico para si?
Para mim, é esse momento da partilha, quando as minhas composições finalmente ganham vida perante um público, um espetador ou milhão de espetadores, não importa. Esse é momento para o qual todo aquele trabalho foi desenvolvido. Aquele momento que não pode acontecer em playback e que é irrepetível, interativo e que depende unicamente do relacionamento e da comunicação entre o que acontece no palco e a forma como é percecionado na plateia.

Considera que existe sempre uma visão alternativa à realidade?
Claro que sim. Essa visão alternativa é potenciada pela subjetividade que caracteriza o ser humano. Nós olhamos para esta mesa [diz, passando a mão pela mesa], a luz dá de uma forma e desse lado dá de outra. Portanto, essa subjetividade é algo que nos enriquece e faz com que a comunicação vá sendo enriquecedora para ambos os lados.

Que tipo de comportamento foi alterando ao longo dos anos ou de que forma é que o mundo da magia moldou a sua forma de interpretar o mundo?
Não foi a magia, foi a vivência. Recordo que até aos meus 25-30 anos era politicamente correto, ou seja, nunca teria publicamente uma opinião que pudesse dividir, que pudesse incomodar, até que percebi que estava a perder o meu tempo e que era muito mais importante eu ser honesto com aquilo que penso e foi isso que passei a ser. Portanto hoje não ´tenho problema nenhum em dizer aquilo que penso e obviamente há pessoas que concordam comigo, outras que discordam, mas essa é a riqueza extraordinária do nosso pensamento e também porque não há homem mais inteligente do que aquele que muda mais vezes de opinião ao longo da sua vida. Estou disposto a ter determinada opinião sobre determinado aspeto e a que alguém me explique o contrário e farei as perguntas necessárias até discutirei se for caso disso e, se calhar, no final mantenho a opinião ou mudo-a.

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Há dez anos, disse que vai escrevendo novas ideias no seu ‘sketch book’, um livro de notas para novos truques.
[Risos].

Ainda o mantém?
Sempre. Tenho uma coleção deles. Ainda hoje estava com ele na mão. Todos os meus sketches book, que substituem o anterior, começam com a data, são fáceis de ordenar e estão numerados por fora e é fácil de revisitar cada momento. Às vezes, pego num e recordo ideias de que já me tinha esquecido e algumas que acho que eram patéticas na altura, e há outras que acho “isto era fantástico e tenho de voltar a pegar nisto”. É sempre bom revisitar.

O que está a escrever nele neste momento?
Neste momento, estou a escrever um livro que será publicado mais para o final do ano.

E como se vai chamar?
Isso é o que não posso dizer ainda, mas vai ser publicado no Porto.

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