“Sui Generis” por Sofia Taipa
Descritivo da obra
Sui generis trata-se de um dicionário personalizado em que cada palavra recebe, em vez de um significado, uma classificação, entre 0 e 100, atribuída por um modelo de Machine Learning (ML). O dicionário reflete as (supostas) preferências da artista, previstas pelo modelo, reduzindo a complexidade humana a meras correlações estatísticas.
O projeto explora as ideias de homofilia e correlação em modelos de ML e o modo como homogeneízam os nossos dados. Trata-se de uma investigação sobre a forma como estes modelos operam e como podemos compará-los à tomada de decisões humana. A obra parte da premissa de que algoritmos de IA são máquinas de julgamento, em resposta ao pressuposto de que estas tecnologias são neutras e objetivas. A artista argumenta que estes algoritmos são projetados para tomar decisões, e, como toda a decisão é inerentemente subjetiva, estes estão destinados a ser enviesados.
O artefacto principal, o dicionário, critica a falsa personalização do modelo desenvolvido pela artista, que na verdade só reforça uma universalidade padronizada. Cada classificação numérica espelha as limitações do modelo: a nova verdade é definida pela consistência e pela semelhança, enquanto a realidade é reduzida a uma entidade estatística. Esta entidade, incapaz de gerar novos futuros, limita-se a reproduzir dados passados, impedindo qualquer possibilidade de evolução.
A instalação replica um ambiente clínico, onde os visitantes analisam o livro através de um microscópio digital. Trata-se, assim, de um ciclo contínuo de escrutínio e julgamento que transforma dados originalmente subjetivos em interpretações quantitativas.
Com Sui generis, a artista questiona como estas abstrações estatísticas transformam a noção de individualidade. Como é que as preferências de terceiros influenciam as classificações que se dizem personalizadas? De que forma a identidade da artista se dissolve no coletivo homogenizado pelo modelo?
Sobre Sofia Taipa
Sofia Taipa é uma artista multidisciplinar com uma formação dupla em Belas-Artes e Ciências Computacionais. O trabalho de Sofia questiona o papel da tecnologia na arte contemporânea, bem como a sua interseção com a materialidade. A sua prática é motivada pela curiosidade sobre a natureza da perceção, assim como temas de identidade coletiva, processos de individuação e experiências sensoriais, procurando descobrir como estes conceitos se manifestam tanto no domínio físico, como no digital.
Após ter estudado simultaneamente Arte Multimédia e Engenharia Informática, Sofia mudou-se para Londres em 2022 para realizar um Mestrado em Artes Computacionais na Goldsmiths, University of London. Desde então, mantém a sua prática artística entre Lisboa e Londres. Co-fundou o coletivo artístico threadsafe em 2023, e participou em diversas exposições entre Londres e Portugal, incluindo o Digital Design Weekend do Victoria and Albert Museum.